
Na qualidade de acadêmico desta instituição, agradeço o espaço gentilmente cedido e confiado pela eminente presidente desta casa, Christienne Marie Barnabé Cavalcanti para, entre outras coisas, sublinhar a passagem dos 21 anos de fundação AVLAC – Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência.
Por feliz coincidência, é no transcurso do ano em que comemoramos os 400 anos da fundação do nosso lugar, erguido e guiado pela força invisível e perene do Padroeiro Santo Antão, que aqui, no Teatro Silogeu José Aragão Bezerra Cavalcanti, nos reunimos para celebrar mais essa vitória coletiva.
Salientemos, contudo, que as sucessivas vitórias da AVLAC, ao longo desses 21 anos, foram e continuam sendo construídas ao custo de muita determinação, perseverança e sobretudo de elevado nível de trabalho.
Nada foi fácil nessa jornada!
Mesmo sendo nós, parte do corpo de uma elite pensante, privilegiada e que teve e tem acesso a espaços e informações qualificadas.
Não custa nada lembrar que, muitas vezes, na qualidade de instituição, padecemos da chamada invisibilidade crônica, quase sempre dispensada a todos aqueles que, ao longo da história das civilizações, procuram clarear os passos dos que apenas sobrevivem à sobra da penumbra do conhecimento.
Impossível, também, ao longo dessas duas décadas, não lembrarmos dos insucessos. Foram e são eles, porém, muita vezes, que nos faz reconfigurar a união coletiva, calibrar novas rotas e nortear os próximos passos, até porque, convenhamos, entre tantas outras, nossa missão primogênita, por assim dizer, tem um pouco de filme de terror. Isto é: ao contrário do senso comum, vivemos afirmando e reafirmando, contra tudo e contra todos, que os conterrâneos antonenses, que compõem a rica galeria de patronos desta casa, não morreram.
Aquilo que chamamos de IMORTALIDADE.
Ou seja: que continuam vivos, ativos e produtivos, mesmo depois da viagem sem volta, viagem essa que todos nós, nesse momento, nos encontramos no guichê de check-in , rumo ao portão, sem data definida para o embarque.
Nobres colegas acadêmicos, sócios e novos sócios desta academia, minhas senhoras e meus senhores:
Entre outras definições, o que seria legado?:
Legado é a herança deixada pelas gerações anteriores, compreendendo valores, tradições e contribuições que impactam na identidade cultural. Aliás, ele vai além dos bens materiais, abarcando ainda a transmissão de conhecimento e princípios, impactando o tempo atual e influenciando o tempo futuro.
Seria uma marca que cada pessoa ou comunidade deixa para as gerações futuras, compondo uma conexão essencial entre diferentes momentos.
Assim sendo, sem muitas delongas, nós, acadêmicos, cada qual no seu ritmo e compasso, em sintonia com a obra do seu respectivo patrono ou não, seguimos, antes de tudo, sendo guardiões privilegiados de um patrimônio público que continua dialogando, produzindo riqueza intelectual, cultural e luz, às gerações vindouras.

Devemos afirmar sempre: os patronos desta academia, cada qual na sua área de atuação, através dos seus respectivos legados, se configura em verdadeiro tesouro antonense.
Até outro dia, na qualidade de acadêmico, sentado entre nós, hoje, o Patrono Dilson Lira, há muito, através das imagens dos seus filmes, nos mantém cada vez mais ricos, no que concerne à memória afetiva de uma cidade vivida em preto e branco. E porque não dizer: um verdadeiro tributo à memória!!
Na mais recente defesa acadêmica, conduzida pelo professor Teófilo José Junior, realçando o legado de seu Patrono, José Tiago de Miranda, homem das letras e do jornalismo por vocação, em depoimento emocionado da família, tomamos conhecimento que o mesmo traduzia a linguagem formal do famoso programa “A Hora do Brasil”, criado em 22 de julho de 1935, pelo então presidente Getúlio Vargas, para a linguagem matutina do seu LIDADOR, além de sacrificar o orçamento familiar para honrar o seu compromisso de informar.
Isso é lição diária. E o significado disso é comprometimento social e respeito aos semelhantes…..
Além do registro civilizatório da nossa Vitória de Santo Antão, obra imortal e obrigatória a todos que precisam consultar o tempo preterido da nossa polis, o Patrono José Aragão educou e nos legou um sem número de profissionais, nas mais diversas áreas do conhecimento.
Com sua formação católica, sua qualidade pedagógica e sua rígida conduta social produziu e formatou uma sociedade sintonizada com os valores éticos e patrióticos. Mestre Aragão, através da condução e dos conceitos familiares, ensinados de “pai para filho”, continua presente na vida dos netos e bisnetos da atual sociedade antonense.
À esse patrimônio imaterial, podemos nomina-lo de valores humanistas. Hoje, tão escasso, no contexto dessa tóxica e doentia polarização política.
E por falar em política, entre nossos Patronos, temos um que traduziu a linguagem política administrativa em instrumento de cidadania. João Cleofas de Oliveira, semeou em todas as direções. Materializou o Hospital João Murilo de Oliveira, transformando calvário em refrigério em prol da vida. E num só tempo, nos concedeu o privilégio da luz elétrica, da água encanada, do primeiro serviço de esgoto e semeou na educação.
Como se poderá afirmar que João Cleofas não continua vivo?
Direito à cidadania e dignidade humana, também são pilares da cultura.
Dessa tribuna, se o tempo a mim concedido não fosse limitado, em função da vasta programação comemorativa, poderia exemplificar, em nome de toda galeria de Patronos, os motivos pelos quais todos permanecem vivos, e porque não dizer no superlativo: vivíssimos!
Todos, empinados pelos seus respectivos legados que transformaram e impactaram, à época e até hoje, simultaneamente, vidas e sociedade.
Claro! Tudo isso em linguagem cifrada, e nem sempre perceptível para a maioria dos mortais. Mas, como falei, lá no inicio, perfeitamente acessível a todos nós que, na qualidade de acadêmicos da AVLAC, navegamos no mar infinito das letras, que voamos nos céus intermináveis das artes e também para todos aqueles que se iluminam nas luzes da razão e da ciência.
Precisamos, sempre, reafirmar a Imortalidade desses antoneses. Como duvidar que os patronos desta academia não estão vivos?
Mas é importante e oportuno que se diga também, nesta sessão festiva, alusiva a passagem dos 21 anos de fundação desta academia de letras, que a vida é dinâmica, que novas perguntas são produzidas todos os dias, que novas demandas nos confrontam constantemente.
Até porque, legado não só aquilo que deixamos quando embarcamos, rumo ao além, mas também aquilo que produzimos enquanto o coração pulsa, a mente pensa e o corpo se movimenta, algo que continuará útil para além das atuações em carne e osso.
Por exemplo:
Se ainda faltam muitos registros sobre a história da Vitória de Santo Antão, muito mais faltava, antes do acadêmico Pedro Ferrer, na qualidade de pesquisador, confeccionar várias obras, privilegiando a não menos importante micro história do nosso lugar.
Agigantada se encontra a obra da acadêmica Luciene Freitas, premiada e referenciada nos mais distintos espaços acadêmicos. Isso é legado em movimento.
Em meio aos versos, às prosas e aos arranjos musicais o compositor e acadêmico Aldeniso Tavares, agora, sintonizado e dialogando com IA, segue transformado inspiração, individual e coletiva, em música para toda vida. Isso se chama legado musical em 360 graus.

Mas não poderia encerrar essas palavras, escritas, entre outros sentimentos, pelas mãos do reconhecimento, que aliás seguem incompletas, em virtudes dos muitos colegas acadêmicos que reconhecidamente seguem produzindo conteúdo nas letras, nas artes e na ciência, sem cravar um tributo especial ao nosso mestre dos mestres, Severino Militão, o Melchisedec. .
Intelectual visionário, pessoa com propósitos concretos. Indiscutivelmente, o principal nome desse projeto, que se chama AVLAC – Academia Vitoriense de Letras Artes e Ciência.
Para concluir, gostaria de realçar que também em 2026, além da passagem dos 400 anos de fundação do nosso lugar e dos 21 anos de nossa AVLAC, também estamos comemorando os 140 anos da chagada do trem em nossa cidade, ocorrida exatamente em 1886.
E qual seria, então, o elo de ligação que poderíamos extrair desse acontecimento marcante, ocorrido na nossa cidade com mundo das letras antonense?
Foi a partir do intercâmbio, facilitado pelo deslocamento sobre os trilhos com a capital, que a então “Cidade da Vitória” incrementou sua vida social, atinente às artes e às letras.
Grupos de intelectuais e artistas das mais variadas linguagens, vindo de alhures, encontrou, no nosso lugar, solo fértil, para plantar novas formas de convivência artística, que despertaram movimentos culturais, tais como grupos de teatros e a tão a irreverente “Academia dos Supersticiosos”, iniciada em 1913, com vida efêmera, é verdade! Mas marcante o bastante para nunca ser esquecida, por baixo da poeira da ignorância, do cupim da invisibilidade ou mesmo ser dragada pela impiedosa marcha do tempo.
Minhas senhoras e meus senhores…..
Encerro, aqui, essas palavras, nas quais, entre outros sentidos, demos vida àquilo que conhecemos como imortalidade. Conjugamos o dialogo entre o tempo pretérito, presente e futuro, daquilo que conhecemos como legado.
Conhecimento e imaginação:
Conhecimento para manter a alma dessa academia no auge do mundo da literatura e da ciência. Imaginação é a força, é o combustível das artes, para todos aqueles que pleiteiam uma vida mais saudável, ativa e livre.
Como diz a canção popular:
“Cada um de nós compõe a sua própria história – E cada ser em si, carrega o dom de ser capaz”
Vida longa para AVLAC – Academia de Letras, Artes e Ciência.
Muito obrigado a todos!!!






























A fotografia da Ponte de Gaiola lembra-me a Vila dos Ferroviários e o arruado de Dr. Alvinho. Arruado, aqui, não é “à beira da estrada”, mas, à margem do Rio Tapacurá. Das enchentes, dos porcos, das galinhas e vira-latas. Da pobreza, dos panos estendidos no arame e das meninas bonitinhas, cheirosinhas a Seiva de Alfazema. Das moçoilas semivirgens debruçadas nas janelinhas de vaso com flor.



