O Instituto Histórico da Vitória de Santo Antão, nos seus quase 80 anos de fundação, empenha-se no esforço de abrigar num só espaço, além de um museu arqueológico composto de acervo local, um museu de arte sacra, um museu de imagem e de som, um museu do carnaval que relembra a tradição da maior festa popular vitoriense, uma revista com temática voltada para a memória dos 400 anos da cidade e uma biblioteca de obras célebres. Trata-se de um espaço de leitura e pesquisa histórica concebido pelo professor José Aragão, presidente da instituição durante 40 anos, cargo continuado pelo professor Pedro Ferrer.
Um anexo do Instituto Histórico, instalado num sobrado mourisco do século XIX (Rua Imperial, 187), foi inaugurado no dia 3 de agosto em memória da filósofa e teóloga vitoriense Maria do Carmo Tavares de Miranda (1926–2012), na passagem — há poucos dias — do seu centenário de nascimento. Conhecida pela sua erudição e por sua trajetória de estudos de filosofia na Alemanha (Universidade de Friburgo) e na França (Universidade de Sorbonne, Paris), bem como por sua atuação como professora da UFPE, como diretora da Fundação Joaquim Nabuco (Seminário de Tropicologia) e como autora de obras voltadas para a filosofia da educação, ela não deixou de ser uma pensadora polêmica, como foi o debate com o educador Paulo Freire (1921-1997).
Não teria sido do seu conhecimento, tenho para mim, a notícia dada por seus admiradores — talvez com a intenção de agradar — de que fora assistente e substituta eventual nas aulas, além de aluna, de Martin Heidegger (1889–1976), o mais famoso filósofo do seu tempo. Em não ter sido, nada deslustraria a sua biografia prodigiosa. É sabido que Martin Heidegger contou com renomados alunos e discípulos brasileiros, além de Miranda, que estudaram diretamente com ele na Universidade de Friburgo na década de 1950. Lembro Emmanuel Carneiro Leão (1929–2023), pernambucano do Recife, intelectual de grande relevância.
Ele se tornou um dos maiores divulgadores e tradutores da obra heideggeriana no Brasil, mantendo uma relação de proximidade acadêmica como discípulo, e não como assistente de Heidegger. Fausto Castilho (1929–2015) foi outro importante intelectual que frequentou os seminários de Heidegger em Friburgo em 1952. Castilho dedicou décadas de sua vida à tradução bilíngue de “Ser e Tempo”, um dos livros marcantes do pensamento do século XX. Outro brasileiro, Ernildo Stein, foi também um aluno muito próximo de Heidegger (com este tive o prazer de trocar impressões de leitura sobre a obra filósofo da Floresta Negra).
Para mim, são considerados membros de uma linhagem filosófica de grande expressão. Miranda, como Hannah Arendt e Hans-Georg Gadamer, fez parte dessa elite de grandes pensadores. Eles desenvolveram interpretações influentes do pensamento heideggeriano. .
Conheci as refinadas ideias de Miranda sobre a complexa obra do seu mestre, sei da marca inesquecível que ela deixou no Seminário de Tropicologia (Fundaj),. e não me seria estranho se ela, eventualmente, ministrasse aulas na cátedra dele. Sabe-se que há núcleos de estudos heideggerianos na UFPE e na Universidade Católica.
Marcus Prado – jornalista






Nunca viajei tanto na minha vida.























